A precarização do trabalho, a multiplicidade de vínculos, a sobrecarga profissional e os impactos dos modelos privatizantes de gestão no SUS foram os eixos centrais da mesa “Trabalhadores da Saúde: Como Enfrentar os Desafios Persistentes”, realizada em 29 de setembro, em Salvador (BA). A atividade contou com as participações de Cristiane Lemos (UFG), Flavio Jose Domingos (UFAL) e Francisca Valda (CNS), com mediação de Isabela Cardoso (ISC/UFBA).
A programação integrou a 3ª etapa do ciclo de debates “Da Reforma Sanitária ao Futuro do SUS – 40 anos da 8ª Conferência Nacional de Saúde”, promovido pelo Outra Saúde, pelo Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (ISC/UFBA) e pelo Observatório de Análise Política em Saúde (OAPS).
Na abertura, a coordenadora da Retes, Isabela Cardoso, destacou a dívida histórica de 40 anos com as trabalhadoras e trabalhadores da saúde. Isabela ressaltou a urgência em acompanhar pautas legislativas no Congresso Nacional, como a articulação da Frente Parlamentar em Defesa do Trabalho no SUS e a mobilização do Conselho Nacional de Saúde (CNS) pela implementação da Carreira Única Interfederativa.
Ao analisar as transformações contemporâneas no mundo do trabalho, Cristiane Lemos (UFG) alertou para a “trípode destrutiva” composta por financeirização, neoliberalismo e reestruturação produtiva. A pesquisadora apontou que termos como flexibilização, pejotização e plataformização encobrem relações de exploração e perda de direitos no setor, defendendo o resgate da centralidade e da radicalidade política da classe trabalhadora como sujeito de transformação social no SUS.
A relação entre modelos privatizantes e a deterioração do trabalho foi aprofundada por Flavio Jose Domingos (UFAL). Em sua pesquisa sobre as Organizações Sociais de Saúde (OSS) — que concentram 40% da força de trabalho do setor —, o professor demonstrou como a gestão gerencialista reduz custos com pessoal, flexibiliza salários e aufere lucro financeiro a partir de recursos públicos, empurrando os trabalhadores para a sobrecarga, a instabilidade e múltiplos vínculos.
Representando a Associação Brasileira de Enfermagem e o CNS, Francisca Valda reforçou que a precarização afeta diretamente a sustentabilidade do sistema e defendeu agendas prioritárias, como a carreira interfederativa, a equidade remuneratória e dimensões adequadas de jornada e descanso. Valda lembrou que o SUS é fruto da mobilização popular e convocou a sociedade a intervir ativamente nas etapas preparatórias da 18ª Conferência Nacional de Saúde, que ocorrem entre 2026 e 2027.
O encontro reuniu acadêmicos/as, gestores/as, trabalhadores/as, estudantes e lideranças sociais na Universidade Federal da Bahia (UFBA), reforçando a necessidade de recuperar o componente estatal e a gestão pública como pilares indispensáveis para a valorização do trabalho e a consolidação da saúde como direito universal.