RETES

Felipe Proenço: Retes se configura como dispositivo estratégico

As possibilidades de contribuição da Rede Nacional de Trabalho e Educação na Saúde (Retes) para o fortalecimento da área, especialmente das ações de gestão no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), são tema da entrevista com Felipe Proenço. A conversa explora também a potência da rede em antecipar de forma estruturada novas demandas do SUS nos próximos anos, em diferentes frentes, programas e políticas.

Felipe Proenço é secretário de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministério da Saúde (SGTES/MS), doutor em Saúde Coletiva pela Universidade de Brasília (UnB), mestre em Saúde Coletiva pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e graduado em Medicina pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Além disso, é professor adjunto da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Confira a entrevista:

Quais as potenciais contribuições da Retes para fortalecer as ações de gestão do trabalho e da educação em saúde no âmbito do SUS?

Felipe Proenço: A Retes pode contribuir de forma estratégica, estruturante e contínua para o fortalecimento das ações de gestão do trabalho e da educação em saúde no âmbito do SUS, em articulação com a Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde (SGTES), especialmente nos seguintes eixos:

Produção de conhecimento para a formulação e fortalecimento de programas e políticas públicas: A Retes atua como espaço de sistematização de evidências, experiências e pesquisas produzidas nos territórios do SUS, oferecendo subsídios qualificados para o desenho, o monitoramento e o aperfeiçoamento dos programas e políticas conduzidas pela SGTES.
Integração entre gestão, formação e trabalho em saúde: Ao articular instituições formadoras, gestores e trabalhadores, a Rede fortalece a convergência entre políticas de provimento, educação permanente, regulação profissional e organização do trabalho, contribuindo para superar desafios históricos na relação entre formação e prática no SUS.
Fortalecimento da Educação Permanente em Saúde (EPS): A Retes potencializa a EPS como estratégia estruturante da gestão do trabalho, ao promover metodologias problematizadoras, aprendizagem em serviço e processos formativos estruturados a partir das necessidades dos territórios, estando assim, em sintonia com a SGTES.
Apoio à articulação interfederativa: A Rede contribui com a cooperação técnica entre União, estados e municípios, compartilhando experiências exitosas e soluções inovadoras, o que promove um alinhamento na implementação das políticas de trabalho e educação em saúde.
Valorização das trabalhadoras e trabalhadores do SUS: Ao dar visibilidade às práticas, trajetórias e saberes dos trabalhadores e trabalhadoras, a Retes contribui para políticas mais sensíveis às condições de trabalho, à qualificação profissional, à fixação e à valorização das equipes de saúde, atrelado diretamente ao compromisso da SGTES com o cuidado e com quem cuida.
Inovação metodológica e fortalecimento das instituições formadoras: A Retes estimula o desenvolvimento e a disseminação de metodologias inovadoras de formação, avaliação e gestão do trabalho, apoiando o fortalecimento das instituições formadoras e a qualificação da oferta educacional alinhada às necessidades do SUS.
Fortalecimento das agendas da SGTES: Ao promover diálogo, produção coletiva de conhecimento e construção de consensos técnicos, a Retes amplia a legitimidade política e institucional das ações da SGTES, contribuindo para a continuidade e a sustentabilidade das políticas de Trabalho e Educação na Saúde.

Desta forma, a Retes se configura como dispositivo estratégico de articulação, escuta e produção de conhecimento, capaz de fortalecer a atuação da SGTES ao conectar política pública, ciência, território e trabalho vivo em saúde. Quando a Rede se fortalece, a gestão ganha densidade, a educação ganha sentido e o SUS ganha futuro.

“A Retes se configura como dispositivo estratégico de articulação, escuta e produção de conhecimento, capaz de fortalecer a atuação da SGTES ao conectar política pública, ciência, território e trabalho vivo em saúde”.

De que maneira a criação da nova rede pode contribuir para uma política de trabalho e educação em saúde atenta às novas demandas do SUS nos próximos anos?

Felipe Proenço: A criação da Retes representa uma oportunidade estratégica para fortalecer uma política de Trabalho e Educação em Saúde capaz de antecipar de forma estruturada as novas demandas do SUS nos próximos anos, em especial as prioridades atuais da SGTES/MS.

Sendo um espaço permanente de articulação entre gestores, trabalhadores, instituições formadoras e pesquisadores, a Rede pode apoiar a formulação, o monitoramento e o aperfeiçoamento de políticas públicas baseadas em evidências e ancoradas no trabalho real em saúde. No contexto do programa Agora Tem Especialistas, a Rede contribui ao sistematizar informações sobre cenários de prática, necessidades regionais, gargalos formativos e estratégias de integração ensino–serviço, qualificando ações voltadas à formação, provimento e fixação de especialistas no SUS.

“Sendo um espaço permanente de articulação entre gestores, trabalhadores, instituições formadoras e pesquisadores, a Rede pode apoiar a formulação, o monitoramento e o aperfeiçoamento de políticas públicas baseadas em evidências e ancoradas no trabalho real em saúde”.

No campo da demografia das profissões da saúde, a SGTES já lançou estudos sobre a demografia médica e da enfermagem, e prevê para o primeiro semestre de 2026 a publicação da demografia da Odontologia. Nesse contexto, a Rede pode atuar como um dispositivo estratégico de produção de inteligência, articulando dados, estudos e experiências capazes de subsidiar análises sobre distribuição territorial, tendências de especialização, mobilidade da força de trabalho e emergência de novos perfis profissionais, apoiando o planejamento estratégico conduzido pela SGTES. De forma complementar, a Rede contribui para o aprimoramento do dimensionamento da força de trabalho em saúde, ao favorecer abordagens metodológicas mais sensíveis às transformações nos modelos de cuidado, às distintas formas de organização do trabalho e às necessidades específicas dos territórios.

A Rede também fortalece a Educação Permanente em Saúde como eixo estruturante da política de trabalho e educação, ao promover processos formativos contínuos, problematizadores e integrados ao cotidiano dos serviços, possibilitando que a qualificação profissional acompanhe as mudanças tecnológicas, organizacionais e epidemiológicas do SUS. No âmbito da educação profissional e técnica em saúde, a articulação promovida pela Rede favorece o alinhamento da formação técnica às demandas atuais e futuras do sistema, valorizando esses trabalhadores como componentes centrais da produção do cuidado.

Em relação ao Programa Mais Médicos, a Rede pode apoiar análises sobre formação, supervisão, integração dos profissionais às redes de atenção e impactos territoriais, contribuindo para o aprimoramento contínuo do programa e sua articulação com outras políticas de provimento e formação. Já no campo da saúde digital, a Rede se apresenta como espaço estratégico para refletir sobre novas competências profissionais, mudanças nos processos de trabalho e necessidades formativas associadas à incorporação de tecnologias digitais no SUS, de modo ético, equitativo e orientado às necessidades da população.

Dessa forma, a nova Rede atuará como dispositivo estratégico para que a política de Trabalho e Educação na Saúde seja integrada às transformações do mundo do trabalho, da ciência e da tecnologia. Ao conectar conhecimento, território e gestão, a Rede fortalece a capacidade da SGTES de planejar, coordenar e implementar políticas públicas à altura dos desafios contemporâneos do SUS.

Por Inês Costal e Patrícia Conceição